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“Insiste-se em fomentar o novo com ferramenta velha”

Criada no bairro de Lomba Grande, em Novo Hamburgo, Susana Kakuta acompanhou a ascensão, a queda e a transformação do Vale Calçadista. Socióloga, mestre e doutora em Economia, dedicou a sua carreira a se antecipar à decadência de segmentos de produção e valorizar a inovação. É o que busca à frente do Banco de Desenvolvimento do Estado do Rio Grande do Sul (Badesul). Na presidência da instituição há quase dois anos, tem o desafio de recompor o rombo financeiro herdado e manter o apoio ao empreendedorismo. Gestora do Tecnosinos entre 2010 e 2015, a descendente de família germânica (o sobrenome de solteira é Strack, e o atual é do ex-marido, japonês) conta nesta entrevista o que falta para o Rio Grande do Sul sair da estagnação e se tornar uma ilha de excelência.

 

Como está a situação do banco?

Agora em abril nós completamos os dois primeiros anos de mandato. O nosso mandato veio acompanhado com a crise econômica do Brasil, e isso nos levou a um esforço muito diferenciado no Badesul. De um lado, a situação que encontramos na própria instituição, de fragilidade de seus ativos por um volume considerável de operações contratadas na gestão anterior com alta concentração, spreads baixos, e isso levou a uma situação, frente ao momento econômico, de fragilidade. Tão é verdade que, logo no início de agosto, lançamos a primeira etapa do plano de contingência.

Por conta da própria fiscalização do Banco Central, não há um regramento e cuidados mínimos…

A grande diferença está no modelo de desenvolvimento que foi praticado. Era um modelo brasileiro, o BNDES acompanhou esse modelo. Fazer desenvolvimento através do financiamento do investimento. Colocou-se muito dinheiro. O Brasil teve um momento de muita disponibilidade financeira por parte dos bancos, com taxas de juro bastante subsidiadas, baixas, com spreads baixos. As agências de fomento, como é o nosso caso aqui, têm permissão só para algumas tipologias de operação. Não temos um cartão de crédito, um seguro. Não temos aquelas fontes de renda que outros bancos têm. Quando você só pode trabalhar com carteira de médio e de longo prazo de financiamento, cujas operações muitas vezes têm dois, três anos de carência para começar a pagar, e pratica spreads baixos dentro da instituição, quando vem um momento econômico como esse, balança tudo.

Mas também não têm as questões de para quem tu emprestas e a concentração?

Óbvio. O problema é a concentração. Esse é o modelo que foi praticado. O Badesul concentrou operações muito além do que poderia ter feito. Ainda que estivesse atendendo às regras. Mas a gente vê hoje que ele extrapolou. Em junho, a gente estava identificando um prejuízo na ordem de R$ 59 milhões. Com uma série de medidas, conseguimos baixar. Fomos a quase R$ 30 milhões. Este ano a situação se agravou sobremaneira em função das recuperações judiciais, que se tornaram um instituto comum no Estado do Rio Grande do Sul. O Badesul tem hoje 26 recuperações judiciais, que totalizam mais de R$ 350 milhões.

Isso representa quanto na carteira?

Temos uma carteira ativa de R$ 4 bilhões. Representa 10% da nossa carteira. Se a gente olhar sob o grau de concentração, está em 19 clientes. São operações bastante concentradas e que põem em risco porque o Badesul é uma instituição criada não para dar lucro:o objetivo é o reinvestimento do capital o tempo inteiro. Não é um banco comercial. O objetivo é fazer desenvolvimento. Os lucros históricos do Badesul giravam em torno da faixa dos R$ 20 milhões. Então, se você tem uma operação acima de R$ 10 milhões que vai a prejuízo, consome todo o lucro. Temos várias operações de R$ 40 milhões, de R$ 25 milhões, que extrapolam todo o esforço que fazemos gerencialmente. O grau de concentração dessas operações é um risco.

Qual é o potencial de recuperação?

No ano passado a gente fez o chamado plano de contingência. Não foi o suficiente. Em agosto, tivemos o nosso limite cortado do BNDES em função de a gente ter três trimestres em prejuízo. Nós nos obrigamos a fazer um plano de reestruturação. Com medidas muito mais profundas, de médio prazo. Esse plano está aprovado pelo Banco Central. Pressupõe deixar o Badesul em azul em 2018. Sim, este ano a gente vai estar em prejuízo, perto dos R$ 60 milhões, mas a rota de saída se dá a partir deste ano, em um conjunto de medidas. Uma delas ataca de forma direta a venda de ativos.

Que ativos o Badesul tem?

É a venda de operações em prejuízo.

Com deságio de quanto?

Nós não temos ainda. Temos de precificar essa carteira. A nossa carteira é diferente, porque tem garantia real. É diferente de uma carteira comercial.

Tem o terreno…

Tem o terreno, tem a fábrica, tem o maquinário. Não sofre tanto deságio.

Tem mercado comprador?

Sim. A gente inclusive já tem alguma manifestação de interesse. Então vamos proceder isso para ajudar a desalavancar e trazer dinheiro de volta para o Badesul.

Nos próximos cerca de três anos, a energia do banco não estará toda colocada nessa recuperação? Sobrará energia para o banco fomentar a economia do Estado?

Tem de sobrar. Obviamente esse trabalho de recuperação está focado em uma questão básica, o ponto de equilíbrio. E, para chegar a ele, de um lado, a gente tem de reduzir despesas e desalavancar e, de outro lado, colocar receita para dentro. É importante lembrar que o Badesul tem um papel fundamental na economia do Estado do Rio Grande do Sul. Se você vê o anúncio da safra recorde em grãos, é porque tem papel do Badesul lá dentro.

Mas o BRDE e o Banrisul não cobririam essa necessidade? Precisa existir o Badesul?

Precisa existir o Badesul. O BRDE é um banco de três estados. E o Banrisul é um banco comercial, que tem outros objetivos. O Badesul é aquele agente que olha a necessidade do Estado do Rio Grande do Sul e atua sobre ela. Tanto que somos questionados dos projetos que financiamos, a respeito do impacto no emprego e na renda e no desenvolvimento das regiões do nosso Estado. O nosso papel é atuar na descentralização do desenvolvimento. E isso ele tem feito de forma muito significativa.

No Rio Grande do Sul não está faltando um projeto de uma nova matriz econômica para o Estado, em um horizonte de 20 anos, 30 anos, como foi feito pelo governador Celso Ramos em Santa Catarina na década de 1960?

No Badesul, com a Secretaria de Desenvolvimento, a gente atua em três eixos. O primeiro reconhece que a gente precisa modernizar setores tradicionais. O que nos trouxe até aqui não garante o nosso futuro. Está aí o exemplo do setor metal-mecânico, o setor automotivo, e o impacto disso na serra gaúcha. É preciso injetar dinheiro para inovação tecnológica, automação de fábrica, modernização de modelos de negócio mais descentralizados. O segundo pilar é a inserção de economias portadoras de futuro. Nós lideramos um cluster de tecnologias para a saúde. É financiar semicondutores, indústria de TI, o setor das novas energias, a indústria criativa. Hoje temos aqui no Badesul, e são áreas que pressupõem dinheiro para inovação tecnológica, onde o ativo não é a fábrica, é cérebro, o conhecimento. Estamos atuando no cluster de tecnologia para a saúde. Atuamos com todas as frentes, desde as universidades, que fazem ensino e pesquisa aplicada nessa área, os hospitais, as empresas. O Rio Grande do Sul tem mais de cem empresas na área de tecnologia para a saúde. Temos gente que faz incubadoras para recém-nascidos com tecnologia de ponta, empresas de biocosméticos que competem a nível mundial com os maiores players na área de cosméticos com produtos 100% orgânicos.

Muitas startups talvez nem saibam que existe oBadesul. Como podem chegar ao banco?

É bem simples. É operação direta. Pode chegar aqui, sentar com o nosso técnico e discutir o seu projeto. Esse é o contato que a gente mais quer. A grande diferença do Badesul para qualquer outro banco é que não é uma linha de crédito. Nós aprovamos um projeto.

E viram sócios?

Em alguns casos, como é o caso dos fundos. O resto é financiamento. Para as startups, a gente tem outras iniciativas. Temos todo um trabalho que a gente faz com os parques tecnológicos. Entre fevereiro e março, vamos lançar um programa, com o Sebrae, vocacionado para micro e pequena empresa do Rio Grande do Sul, e ali dentro estarão as startups. Este programa terá condições bastante diferenciadas, porque a gente sabe do desafio do pequeno empresário de obter garantias. Esse é o papel do Badesul.

E o terceiro eixo de atuação?

Municípios. A visão de que o desenvolvimento se dá de forma local, através dos municípios. Não existe competitividade em desenvolvimento se você não tem infraestrutura local. E a gente sabe do desafio de obtenção, por parte dos municípios, de recursos para investimento, saneamento básico, energia, escola, saúde… A gente financia todas as áreas de necessidade dos municípios. A otimização dos seus sistemas de arrecadação, por exemplo.

Quanto o Badesul vai emprestar este ano?

Vamos ter, com os municípios, na ordem de R$ 500 milhões. É um número bom. É um número bem razoável no momento em que a gente tem uma queda importante na demanda de investimentos de longo prazo. Essa crise vem após um grande estouro de oferta de financiamento. Quem queria fazer investimento fez lá atrás e agora está tendo de pagar. Ao mesmo tempo em que está tendo de pagar, essa fábrica não está lotada. A recuperação que a gente tiver, mesmo que seja um PIB positivo de 0,2% este ano, é sobre uma base ruim, portanto não haverá significativamente investimentos de longo prazo.

Uma das coisas que atrapalham o desenvolvimento é a burocracia ambiental. Diz-se que o Rio Grande do Sul é um dos piores Estados do ponto de vista da aprovação das licenças ambientais.

Há uma mudança muito interessante em curso. Hoje a Secretaria de Meio Ambiente e a Fepam têm feito um trabalho extremamente importante, buscando modelos, como o de Santa Catarina, de Minas Gerais, e isso tem mudado muito os prazos. O que a gente faz aqui é um sistema de prioridades. Quando recebemos uma empresa que quer se instalar no Rio Grande do Sul, ou um empresário que quer aumentar a sua planta, e busca um incentivo do tipo Fundopem, é recebido pela Secretaria de Desenvolvimento e, quando ela recebe, já chama os seus agentes.

Vocês operacionalizam Fundopem?

Nós fizemos a parte financeira do Fundopem. Essa empresa vai receber o tratamento de one-stop shop. Vão estar juntos o Badesul para discutir a necessidade de financiamento, a Secretaria de Meio Ambiente, a Fepam. Ali se cria uma lógica de fasttrack. E vêm notícias muito boas também não só do meio ambiente mas também da Junta Comercial. Está se tornando 100% digital, e os prazos para abertura de empresas vão cair radicalmente. Dois ou três dias.

E os bombeiros?

Todo esse movimento está sendo feito de forma conjunta.

Mas não é preciso uma articulação também com os municípios?

Em termos de legislação de meio ambiente, já existe delegação para os municípios, o que facilitou muito. Até 10 mil metros quadrados de construção de uma planta industrial, a não ser que ela seja de alto potencial poluidor, o município é que faz o licenciamento. Isso já mudou muito. Porque tu sais de uma fila grande para uma fila menor, e para prioridade. A questão dos bombeiros diz respeito à própria capacidade física e humana frente ao volume (de pedidos de licença).

A indústria do mundo está mudando com novas tecnologias. O setor produtivo gaúcho está atento? Ou, mais do que isso: está se preparando?

Muita gente já se deu conta desse movimento a nível mundo. Em muitos casos, pela faceta mais perversa, a da competição. Quando a gente fala de um produto chinês que entra aqui a um custo muito mais baixo, é óbvio que há o custo Brasil, a questão tributária, mas também a gente sabe, com levantamentos da CNI, que a produtividade brasileira na indústria nos últimos anos deu uma estagnada. Tudo isso pega o Brasil em um momento muito ruim. Institucional, econômico. Este é o momento em que a gente deveria estar fazendo esse tema de casa. No início do ano, participei de um evento grande na Alemanha, o Encontro Brasil-Alemanha, em que o tema central era a indústria 4.0. É a indústria onde tudo fala com tudo. O emprego como a gente conhece hoje se minimiza. Gera outras oportunidades, mas dentro da fábrica é erro zero, produtividade máxima, coisas dessa natureza. Esse tema entra num Brasil em um momento em que as empresas estão preocupadas com suas próprias entranhas. Essa é a perda efetiva que se dá em termos de arranque do Brasil.

Isso pode representar um gap muito grande?

Acho que sim. Nós patinamos. No futuro, vai exigir um esforço muito maior. E esse esforço a indústria não vai fazer sozinha.

O setor tido como tradicional, conservador, é o que mais está evoluindo do ponto de vista tecnológico: o agronegócio. A produtividade do Rio Grande do Sul em alguns setores é o dobro da média nacional. E o setor que deveria ser o mais inovador, a indústria, parece estar preso ao pensamento antigo. Falta o novo empreendedor?

Esse é o ponto. No agronegócio gaúcho, estamos vivendo o momento da nova geração. Terceira, quarta geração. Todos têm nível superior. Os que fazem diferença de produtividade são os filhos ou netos que estudaram, fizeram uma pós-graduação e que começaram a olhar o tempo três dias antes, para saber como vai estar para semear, entender um trator que tenha computador para saber quantos grãos ele semeou vão fazer diferença no número final. O modelo industrial é mais arraigado nas coisas mais tradicionais. Ainda é a inovação via máquina, ou via matéria-prima. Mostram isso os números dos investimentos em inovação dentro das empresas. Enquanto países como Coreia e China têm taxas de 5% do seu produto em investimento em tecnologia, no Brasil estamos falando em 1%, sendo uma boa parte disso subsidiada pelo governo.

Do ponto de vista mercadológico também. Sempre nos mercados tradicionais…

Também. Há fenômenos interessantes acontecendo. Antes do Badesul, eu estava no Parque Tecnológico. De vez em quando converso com alguns empresários do Parque Tecnológico, o Tecnosinos. Eles me dizem o seguinte: “Olha, Susana, pra mim o ano que passou foi um ano ótimo, e 2017 está sendo muito bom pra nós”. Aconteceu o seguinte: TI, ferramenta de gestão, antes era custo. Hoje tem uma gama tremenda de empresas que se deram conta de que isso mexe na produtividade, no resultado final da empresa. Começou a se investir em áreas em que antes não se investia. Antes se comprava. Para aumentar a produtividade, comprava-se uma máquina.

A Embrapa é um dos protagonistas do desenvolvimento tecnológico no campo. Não tem uma Embrapa do setor industrial, tem?

Tem. Embrapi. Só que é diferente. A Embrapa tem estruturas físicas. A Embrapi é mais recente e, em vez de criar estruturas físicas, homologa centros de tecnologia. No Rio Grande do Sul, temos dois. Um de mecânica de precisão, metal-mecânica, o Senai perto da Unisinos. O outro é um Senai de polímeros. E agora a gente potencialmente vai ter o terceiro, extremamente relevante, o Ibetec, Instituto Brasileiro de Tecnologia do Calçado.

Isso estava caindo de maduro.

É fundamental. Quando se fala em sapato, querer concorrer com chinês é commodity. A chance é criar produto, matéria-prima, outros insumos, outras formas, para agregar valor ao produto.

Que países estão preparados para este salto?

Existe um grupo de tecnologias que quem dominar vai continuar jogando o jogo global, sendo protagonista, e não caudatário. TI, nanotecnologia, biotecnologia, semicondutores, as novas energias. São as áreas portadoras de futuro e que, daqui a cem anos, mesmo na sua forma modificada, vão estar norteando todas as relações humanas, seja no grau mais básico, a forma como tu abres a tua porta, se é chave, dedo, íris, até como vais fazer uma cirurgia. O jogo global vai ter três tipos de players. Aqueles que vão estar olhando tudo acontecer e vão ser caudatários, fazendo alguma forma de relacionamento naquilo que lhes convém. Muitos países da América Latina têm esse perfil, assim como da África. Há um grupo intermediário que tentará fazer a diferença. E tem aqueles que vão liderar. Entre eles, não tem como excluir os Estados Unidos, porque têm as melhores universidades. Tecnologia é penso. Ter uma estrutura de formação de recursos humanos de ponta é fundamental para ser player nesse jogo. Quem são os outros? Coreia, Japão, China. Eles têm hoje o protagonismo de serem lançadores no mundo.

Qual é a posição confortável para o Brasil? Sermos o do meio?

Nós temos que ser no meio. A gente não tem condições de estar lá em cima. E estar no meio não será uma situação de todo o Brasil. Esse será um jogo que nós temos de começar a jogar por ilhas. Está associado a conhecimento. Tem de ter um bom engenheiro, um bom cientista.

Isso não é pregar no deserto? Tem eco?

Tem, mas não na força suficiente. E a força suficiente está atrelada a uma questão que a gente insiste em fazer no Brasil: tentar fomentar o novo com ferramenta velha. Vou usar um exemplo. O Brasil é um grande demandador de TI e já é um grande produtor mundial de TI. Temos empresas globais de TI, o caso da Stefanini, por exemplo. TI, no mundo inteiro, tem uma jornada de trabalho absolutamente diferente das relações de trabalho no Brasil.

A legislação trabalhista precisa mudar.

Tem de mudar. Não tem como, de um lado, botar na tua política nacional “setor prioritário TI”, se tu não tocar nessas coisas.

Home office, por exemplo.

Tudo. Terceirização. Quarteirização. No mundo inteiro, é assim que funciona. Nós queremos equalização, para poder competir.

Trazendo para o Rio Grande do Sul: a população está estagnada…

Não só está estagnada, mas está envelhecendo, e estamos perdendo talentos.

E ela cabe toda na capital paulista, ou seja, não é um mercado consumidor gigantesco. A única saída justamente não seria se transformar em uma ilha de excelência?

Eu brigo por isso. A minha causa pessoal é isso. A única saída do Estado do Rio Grande do Sul é ser excelente. Isso começa pela educação. Não tem outra saída. O que nos trouxe até aqui, metal-mecânico, tal como está, plástico-borracha, tal como está, calçado, como estava, pois já tem mudado bastante… O Rio Grande do Sul perdeu fábricas, mas ganhou boas que desenvolvem novos produtos, novas tecnologias. Se essa indústria tradicional não der o salto, como o agronegócio deu, tu não fazes a ilha.

Como a Índia conseguiuse colocar como um ponto de excelência em software? É um país que ainda tem castas, mobilidade social próxima de zero, enormes dificuldades, inclusive de saneamento básico.

Projeto-país é o nome disso. Vivi bem o caso da Índia. Em um período, até para fazer a atração de investimentos, em questão de dois anos eu fui umas seis vezes para a Índia. Estive desde com ministro de Educação, de Desenvolvimento, até dono de start-up, até professor universitário. Todos eles sabiam o que significava a indústria de TI para a Índia naquele momento. Falavam os mesmos números e sabiam aonde a Índia queria chegar. Isso é ter início-meio-e-fim em um projeto. No caso da TI, não adianta incentivar TI no Brasil se a gente não mexe na reforma tributária, na terceirização, na quarteirização, nas relações de trabalho. Porque isso não dá isonomia. A Índia colocou isso como projeto: nós vamos ser bons nisso. O que ela fez: primeiro eixo, educação. Vi engenheiro de computação em dois anos ser formado lá. Bom. Sempre vinculado a um projeto de desenvolvimento, eles pegavam na região tal os jovens de tal a tal faixa que estão saindo do Ensino Médio, “Vamos dar bolsa de dois anos para estudarem Engenharia da Computação”. Para esses jovens, a bolsa significava ganhar mais do que toda a família. E, depois, como engenheiro, muito mais. Existia um projeto de futuro, e a educação era central. Não se cria ilha sem ter educação. Ouvi hoje de manhã que o Brasil perdeu nível no ensino de matemática e português. Hoje nem 9% dos alunos que saem que do ensino têm as competências básicas em matemática. Também tem o contrário acontecendo. Porque existem hoje as ilhas Tecnopuc, Tecnosinos? Porque você tem escolas de alto nível no ensino básico, escolas de nível médio, como o Liberato, o Anchieta, escolas de altíssimo nível, e universidades que fazem a diferença.

Nós não temos um projeto de Nação.

A minha família é de origem alemã. Conheci fases do desenvolvimento alemão. Lembro que a gente ia a uma Hannover Messe, e o conceito da feira, 15 anos atrás, era de uma Alemanha produtora e lançadora de produtos. Máquinas. Hoje a Alemanha diz o seguinte: “Nisso nós não temos como vencer os nossos competidores. Isso se tornou commodity. Vamos ser o país da inovação”. Ela quer, sim, continuar fazendo aquela máquina. Só que ela terá sempre a propriedade intelectual do último modelo e embarcar as outras coisas. É um projeto-nação. Ali ela alinha tudo. Sobre a questão do Estado do Rio Grande do Sul, é premente que se faça esse esforço de recuperação financeira do Estado…

Poucos Estados estão atentos à oportunidade.

Poucos Estados têm as condições que o Rio Grande do Sul tem. Temos este tecido todo implantado: indústria diversificada, as melhores universidades do Brasil, parques industriais, um empreendedor que assume riscos… Poucos têm.

Como se faz para ter um projeto de Estado, e não de governo?

A gente está à frente de uma instituição de fomento. Ela traz pra gente algumas experiências interessantes. Uma delas é lidar com interlocutores de diferentes cidades, setores e partidos. Pergunta para um prefeito ou um deputado do partido de mais extrema esquerda “Qual são as tuas três prioridades?”, depois faz a mesma pergunta para um da direita.Serão as mesmas. A política acima do bem-estar da sociedade. Quem está aí está se tornando profissional da política e esquecendo do bem-estar da sociedade. É uma vergonha. Se as prioridades são as mesmas, não é de chegar uma agenda comum do que é importante para o povo do Rio Grande do Sul e ele vai pra lá se tomarmos essa iniciativa pró-povo?