|
13/12/2005 13:53:38
DALTON PASTORE
 |
| DALTON PASTORE |
Dalton Pastore, presidente da Abap (Associação Brasileira de Agências de Publicidade), tem 54 anos, há 33 no mercado publicitário. Começou como redator, sete anos depois foi para a área de planejamento e atendimento. Trabalhou a maioria desse tempo na antiga Standard, hoje Ogilvy, foi presidente da Standard no Brasil. Depois, foi presidente do Grupo Abril na Argentina, onde ficou mais de um ano. Retornou ao Brasil para ser diretor nacional de comercialização do Grupo Abril. Saiu de lá para montar com Cláudio Carillo a Carillo Pastore. Venderam parte da agência ao grupo Euro RSCG, criando, há 10 anos, a Carillo Patore Euro RSCG.
Adonline - Você tem falado em incentivar a criação e pequenas e médias agências e em buscar clientes em pequenas e médias empresas. Existe uma crise na publicidade brasileira e esta é a solução? Dalton Pastore- A crise não é da publicidade brasileira. É também não sei se é uma crise, porque crise é uma coisa que vem, ataca, e se alivia. Acho não estamos vivendo uma crise, mas uma nova tendência. É assim que é. A globalização foi inventada pelos norte-americanos para favorecer a eles, não a nós. Eles globalizaram, nós fomos globalizados.. Quando eles globalizam, eles fazem com que as suas empresas fiquem mais fortes, comprem marcas regionais e diminuam o número de marcas sendo apoiadas por publicidade. Se a gente pegar o ranking dos 20 maiores anunciantes do Brasil últimos 20 anos, vai se ver que a grande maioria das empresas que apareceram nesse ranking foi comprada por empresas multinacionais e desapareceram. Eu não vou citar nomes por que vai ficar desagradável para quem comprou. Mas se alguém fizer esse exercício, e não é difícil, vai ver a grande quantidade de marcas que estavam entre os 20 maiores anunciantes do Brasil e que desapareceram. Se a globalização trata de concentrar os esforços num número menor de marcas para realizar a economia de escala, é evidente que as agências de publicidade, os profissionais fornecedores de serviços de publicidade e os meios de comunicação enfrentem uma situação mais difícil, com um número menor de anunciantes. Portanto, eu acho que a função das associações, da Apab, que eu presido, por exemplo, é contribuir para a criação de novos mercados, de novos anunciantes.
Adonline -Não seria um processo de anti-globalização, mas de globalização concorrente? Dalton Pastore- Concorrer com a globalização é bobagem. Ela existe, nós não tivemos escolha, alguns de nós acharam bom, outros, ruim. Não importa. Nós temos que criar novos anunciantes. Quando a gente faz "Comunicar & Crescer" (palestras para pequenos e médios empresários) eu sempre digo o seguinte: "Você, micro ou pequeno empresário, pense na maior empresa do mundo, a mais poderosa do mundo. Pensou? Muito bem, ela começou do sonho de um homem exatamente como você está começando a sua. Não existe nenhuma razão para que você não construa uma igual. Então, vamos ver como a gente pode lhe ajudar dentro do nosso segmento, que é marketing, mercado, comunicação".
Adonline - Mas a publicidade também está dependendo muito da distribuição de renda no País e o Brasil está sacrificado muito. Dalton Pastore- De novo não é só o Brasil, é o mundo todo. A globalização também não feita para que os mais ricos transferissem seus recursos para os mais pobres.
Adonline - Não que você seja contra a globalização Dalton Pastore - Por um acaso, eu acho que a globalização é um mal para a humanidade. Mas não é disso que estamos discutindo. Estamos discutindo os efeitos dela. Ela foi feita para concentrar mais riqueza e é isso que está acontecendo no mundo todo. No Brasil esse problema é muito mais grave do que na Europa, nos Estados Unidos. Já era antes e continua a ser. Se a gente não tem consumidores, se somos um País de 180 milhões de habitantes, dos quais 1/3 não pode consumir nada, essa é a nossa matéria prima. A matéria prima da publicidade não é anunciante, não é o meio de comunicação, não é o fotógrafo. É o consumidor. Nós precisamos de mais consumidores, tendo mais consumidores, tem mais mercado. Mas nisso a gente não pode ajudar, infelizmente.
Adonline - Agora, a publicidade brasileiro também sofreu uma crise, com as histórias de Marcos Valério e valerioduto e Duda Mendonça dizendo que recebeu pagamento vindo de um paraíso fiscal. No que isso ajuda a publicidade? Dalton Pastore- A crise não ajuda a publicidade em nada. Atrapalha em muito. Eu costumava dizer em todas as minhas palestras, sou presidente da Abap há três anos, estou no segundo mandato, que em publicidade nunca houve um escândalo, agora não posso mais dizer. Essa crise só nos prejudicou. Seja pelas duas agências do Marcos Valério sendo usadas para gerar recursos ilícitos,lavagem de dinheiro, enfim, seja lá o que for, a gente vê todos os dias acusações, denúncias, investigações em todos os jornais, seja por uma agência que fez a campanha do presidente da República e recebeu declaradamente dinheiro sem origem, do exterior, num paraíso fiscal, enfim... não ajuda em nada. Atrapalha nossa vida é uma mancha na nossa história. E a luta que a Abap tem tido é "vamos separar o joio do trigo". Não é porque duas ou três agências fizeram isso que todas estarão fazendo. O lado bom disso é que a população não pensa que todas estão fazendo. Esta generalização não existe. Se você vê um escândalo envolvendo um banco, deixa seus correntistas sem dinheiro, ninguém duvida do sistema financeiro nacional. Então, generalização não existiu.
|