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22/9/2005 16:43:22
NELSON SIROTSKY
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| NELSON SIROTSKY |
Ele preside um dos maiores grupos de comunicação do país, a RBS, e a Associação Nacional de Jornais (ANJ), por isso mesmo é uma voz qualificada para falar sobre o papel que a imprensa vem assumindo nas denúncias, apurações e cobertura da crise política que estamos vivendo. Com vocês Nelson Sirotsky:
Adonline: Como avalia a situação da imprensa na apuração e divulgação de denúncias de corrupções na atual crise brasileira? Nelson Sirotsky: Na minha avaliação, a imprensa brasileira tem cumprido plenamente o seu papel de agente de informação a serviço da sociedade, graças à democracia plena e absoluta que vivenciamos hoje no país. Evidentemente que há alguns excessos neste processo de informação, mas estes desvios não são suficientemente fortes, expressivos e significativos a ponto de representarem uma distorção da nossa atividade. Felizmente, o que tem se confirmado pela imprensa brasileira é a regra do bom jornalismo e da excelente prestação de serviço para a sociedade como um todo.
Adonline: Em determinados momentos dá a sensação de que a imprensa consegue ir mais fundo nas investigações do que a própria polícia ou os demais organismos de apuração, como CPIs, Ministério Público e os governos. Isso é só uma sensação? Nelson Sirotsky: Sim, concordo que seja apenas uma sensação. O que acontece é que a imprensa oferece as informações para o público praticamente em tempo real. Hoje temos um processo de disseminação das informações muito ágil, seja pelos veículos eletrônicos ou impressos. E isso é possível porque o compromisso da imprensa, e do bom jornalismo, é exclusivamente com a informação e com os interesses do cidadão. Já os órgãos oficiais – as CPIs, a Polícia Federal, o Ministério Público – precisam cumprir ritos de natureza jurídica e de natureza técnica que muitas vezes atrasam o processo de comunicação.
Adonline: Qual o seu sentimento em relação a tudo que tem vindo à tona em relação ao PT, governo Lula e boa parte da classe política brasileira? Quanto de tudo isso é verdadeiro? Nelson Sirotsky: A minha reação enquanto cidadão é de perplexidade e desapontamento. Independentemente da questão ideológica do que representa o PT, ou qualquer outro partido, a minha visão como cidadão é que a política precisa ser exercida de uma maneira ética. E a minha sensação era de que o PT, de alguma maneira, sempre a exerceu, no seu sentido mais amplo, de forma ética. E o que estamos vendo agora é que, infelizmente, alguns segmentos do PT não estavam alinhados com este princípio. Acho isso muito ruim para a sociedade brasileira e creio que há um desapontamento muito grande com o que está acontecendo no nosso país hoje. Não apenas com o PT, mas o que está acontecendo com a classe política brasileira de uma maneira geral. Não é em vão que os políticos têm hoje os mais baixos índices de confiança perante a sociedade.
Adonline: Na sua opinião, o presidente Lula sabia ou não sabia de tudo que vinha acontecendo no seu governo e em torno dele, no que se refere à corrupção? Nelson Sirotsky: O Presidente da República é o maior magistrado do país, com a espinhosa tarefa de dirigir a nação. É óbvio que o presidente não tem condições de acompanhar todas as operações, todos os movimentos, todas as ações no detalhe, sejam elas de natureza econômica, social ou política. Por outro lado, penso que o presidente tem responsabilidade nesse processo também, pois é o partido dele, o partido que o elegeu, que está sendo questionado. Mas o relevante, na minha visão, não é saber se o presidente sabia ou não, e sim a constatação que o presidente está tomando as providências que cabem a um chefe de Estado: facilitar o processo de investigação por meio dos mecanismos que estão sob o seu controle, no caso, a Polícia Federal e o Ministério da Justiça, e respeitar as decisões de outros órgãos que não estão sob seu controle, como no caso as decisões do Judiciário, os encaminhamentos do Ministério Público e do Congresso Nacional.
Adonline: Em que o atual processo difere do vivido pelo país durante o governo Collor? Lula pode vir a sofrer processo de impeachment? Nelson Sirotsky: Ambos são processos de natureza ética, mas processos distintos. O de Fernando Collor era um processo que envolvia o desvio de recursos públicos e privados por parte de um assessor direto do presidente. O processo atual é diferente, pois é de natureza política. Envolve um partido essencialmente e também congressistas de outras siglas. Trata-se de uma discussão muito mais de natureza política do que de natureza técnica como foi o caso que envolveu o presidente Collor. Nesse sentido, não vejo nenhuma razão que poderia justificar um processo de impeachment do Presidente Lula.
Adonline: A ANJ tem algum posicionamento/iniciativa em relação a essa crise e seus encaminhamentos? Nelson Sirotsky: A ANJ, através de seus dirigentes e dos membros do Conselho de Administração, teve a oportunidade de ter uma conversa franca e aberta com o Presidente da República sobre o atual momento do país e, no último dia 9 de setembro, pode se posicionar. Acreditamos que diante da crise política, felizmente, a imprensa brasileira está cumprindo plenamente sua missão, inserida num clima de liberdade de expressão, de informação e de imprensa. Foi esta a mensagem dada ao presidente: que o processo informativo, e a análise crítica que dele se deriva, não pode ser entendido como um posicionamento político ou ideológico. E em nenhum momento ouvimos do presidente qualquer tipo de reclamação ou reivindicação, pelo contrário, ele valorizou o papel da imprensa em situações de crise como esta. O fundamental é que todos compreendam que o direito à informação não é um direito das empresas de comunicação, dos empresários ou dos jornalistas, este é um direito do cidadão.
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