|
13/9/2005 14:06:00
FLÁVIO MEDEIROS
 |
| FLÁVIO MEDEIROS |
O redator Flávio Medeiros, criativo da Quê/Next encabeça chapa única para eleição da nova diretoria do Clube de Criação do Rio de Janeiro, devendo presidir a entidade pelos próximos dois anos. Aqui ele fala sobre a propaganda carioca, sobre criatividade e outros quetais.
Adonline: A criação publicitária brasileira parece ter entrado num marasmo nos últimos anos, com poucas campanhas realmente criativas, capazes de mudar conceitos e estabelecer novos patamares criativos. Dá para contar nos dedos as "grandes campanhas" nacionais desse novo século. Você concorda com essa análise? Quais as razões da mesmice que vemos veiculada em todos os meios, no Brasil inteiro?
Flávio Medeiros: Acho que o Brasil continua produzindo algumas das melhores campanhas tradicionais do mundo. Mas não é só isso. A nossa qualidade criativa é reconhecida nos festivais internacionais na área de web, marketing direto, no-media. A ruptura com o modelo clássico é lenta e gradual. E estamos na vanguarda do processo. Até pela facilidade dos profissionais brasileiros estarem sempre pensando em conceitos e não em peças. Não acho que o que estamos vendo é mesmice. Tem gente boa pensando à frente.
Adonline: A propaganda carioca sempre foi muito criativa e irreverente. No entanto, isso não foi capaz de segurar as grandes contas nacionais, que migraram para o mercado paulista. Essa história de que o anunciante quer uma agência criativa não é historinha pra boi dormir?
Flávio Medeiros: O que não segurou as grandes contas no Rio não foi falta de criatividade. Os profissionais do Rio de Janeiro já provaram que sabem fazer boa propaganda. Tanto que, hoje, ocupam cargos importantes nas principais agências do País. O que mudou foi o eixo econômico do Brasil. São muitos anos de falta de investimento no Estado. Não existe nem mais Bolsa de Valores na capital. Apesar disso, continuamos a produzir propaganda com conceito, criativa e que vende no Rio. Petrobras, Telemar, Oi, Coca-Cola, SC Johnson são exemplos de grandes anunciantes que acreditam na criatividade carioca.
Adonline: O que o Rio pode fazer e está fazendo para voltar a ser referência, não apenas na criação como também nos grandes negócios do mercado publicitário brasileiro?
Flávio Medeiros: O Rio não tem que voltar a ser referência só em criação. O Rio tem que ser - sempre! - referência em criatividade. O espaço que estamos perdendo é o da música, das artes, do jornalismo, da arquitetura, das decisões políticas. Há alguns anos, a gente está deixando de ser a capital cultural do País.
O que estamos precisando é que todas os setores que trabalham gerando pensamento se unam para a cidade dar a volta por cima. E o CCRJ pode ser catalizador desse processo. Um centro de propagação de idéias. Os criativos do Rio têm disposição de pensar em campanhas de recuperação da cidade.
Adonline: Você se sente atingido em seu orgulho profissional com os escândalos patrocinados pelo "publicitário" Marcos Valério? Tem sentido algum constrangimento de seus colegas? O quanto a credibilidade dos publicitários ficou abalada com tudo isso?
Flávio Medeiros: Acho que a vulgarização da profissão não é de hoje. Você encontra universidades, faculdades, cursos profissionalizantes em cada esquina chancelando o estudante com um diploma de publicitário. A discussão é saber se cada um deles está preparado para fazer anúncios, comerciais e, sobretudo, ter noção da responsabilidade ética que é veicular uma idéia no horário nobre para milhões de espectadores.
Adonline: Qual a melhor campanha publicitária veiculada na mídia brasileira neste ano? e qual a pior?
Flávio Medeiros: A propaganda brasileira de festival é muito acima da média. A propaganda brasileira veiculada no dia-a-dia já é acima da média. Havaianas é uma campanha que gostaria de ter feito. O comercial de Rainha também é ótimo.
Já o break local, muitas vezes, é lastimável. É um pouco falta de cultura de clientes com menos recursos e conhecimento. Deve existir uma maneira de incentivar esses clientes a fazer mais e melhores propagandas. Por exemplo, não cobrar duplicidade, criar horários específicos com desconto, etc.
Adonline: Você está diante do gênio da lâmpada e pode fazer três pedidos em relação ao futuro da propaganda brasileira, o que pediria?
Flávio Medeiros: Que a ética seja sempre atributo para um critivo ser considerado bom profissional. Que veículos, clientes e agências mantivessem (ou, pelo menos, rediscutissem) as regras do CENP. Que a criatividade carioca continue se destacando.
Adonline: Quem são suas referências profissionais?
Flávio Medeiros: Uma pasta de portfólio de um estagiário pode ser referência profissional. Vendo pastas, dia a dia, você encontra pequenos anúncios com grandes conceitos. Acho que aprendemos a criar conceitos no Brasil.
Talvez seja herança das grandes agências que temos - e tivemos - por aqui. DPZ, MPM, Almap, F/Nazca: todas têm história de campanhas relevantes, basta folhear os anuários e a memória dos consumidores.
|