|
24/8/2005 14:03:54
JUREMIR MACHADO DA SILVA
 |
| JUREMIR MACHADO DA SILVA |
O nosso Saia Justa desta vez, também entra na crise pela qual passa o País. Fomos fazer algumas perguntas diretas e levamos respostas idem do jornalista, escritor, professor e pensador Juremir Machado da Silva, de quem Diogo Mainardi diz ser o melhor texto do Brasil. Juremir é conhecido pelas polêmicas que levanta, pois como ele mesmo costuma dizer em tom de gozação: “se mexeu, eu atiro!”. É um homem de comunicação, lúcido e simpático à esquerda, mas que não se furta à crítica. Com vocês Juremir Machado.
Adonline: Além da semelhança capilar, o que mais Marcos Valério lembra PC Farias? O presidente Lula lembra Fernando Collor? Juremir Machado: Acho que Marcos Valério e PC Farias integram a mesma categoria, a dos perigosos homens de confiança que devem arranjar dinheiro e arcar com as conseqüências em caso de confusão. Talvez a diferença entre eles esteja no fato de que Marcos Valério, ao que consta, atuou para encher a caixa de um partido, enquanto PC teria trabalhado pelo enriquecimento pessoal de seus patrões. Em todo caso, ambos ajudaram a financiar projetos de poder. Não vejo diferença entre os governos Lulla e Collor. Tanto que fui o primeiro a grafar Lulla com dois eles.
Adonline: O que você acha que vai, de fato, acontecer com o PT, o presidente Lula e o Brasil depois dessa crise toda? Juremir Machado: Creio que Lulla, salvo revelação de algum fato ainda mais escabroso, será mantido em fogo brando até o final do seu governo. A economia vai bem, de acordo com os critérios dos donos do poder, e não interessa piorar nossa imagem no exterior com um novo impeachment. De resto, as pesquisas mostram que Lulla será batido num segundo turno; então, é só esperar, mantendo-o sob pressão para que não se recupere.
Adonline: A possibilidade do impeachment parece afastada no momento. Você acha que isso se deve à falta de provas da participação do Presidente ou por receio de entregar o país a Severino? Juremir Machado: A possibilidade de ter de entregar o governo a Severino pesa, mas menos do que o medo de desarrumar a economia ou renovar nossa imagem de república de bananas. Para a oposição, o sangramento de Lulla é suficiente. Não é necessário ir além disso para alcançar o objetivo maior que é o poder. Ele virá no momento certo.
Adonline: Você acha que a imagem dos publicitários brasileiros foi prejudicada pelo "colega" Marcos Valério? Na sua opinião ele é publicitário ou apenas um operador, um lobista? Juremir Machado: As agencias publicitárias estão com a fama de serem grandes lavanderias. Mas não creio que isso atinja a profissão em geral; penso que se restringe aos marqueteiros, uma subcategoria dentro da publicidade ou algo assim; a política tornou-se refém do marketing e precisa trabalhar para sustentá-lo, ao mesmo tempo em que é sustentada pelos marqueteiros; é uma relação simbiótica ou parasitária.
Adonline: Para você, que sempre foi um pensador simpático à esquerda, o Brasil corre o risco de uma guinada à direita com todas essas denúncias envolvendo um governo eleito sob a bandeira das lutas de esquerda? Juremir Machado: A esquerda guinou para a direita. Faz tempo. Talvez agora seja possível construir uma esquerda possível, equilibrada e nova. Esquerda não pode ser mais luta de classe. Mas uma sensibilidade social elevada. E a defesa de valores que não se limitem ao mercado.
Adonline: A crise que estamos vivendo é mais uma crise de pensamento, de modelo de gestão pública ou simplesmente de condutas individuais? Juremir Machado: É uma crise de tudo um pouco: legislação inadequada, afrouxamento de valores, deslumbramento com o poder, falta de solidez moral e crise de paradigmas. É a era neoliberal da política, um vale-tudo em nome da causa, da estratégia, do jogo como ele é jogado.
Adonline: O que mais lhe deixou espantado e perplexo nessa crise toda? Juremir Machado: As mentiras de um partido construído com base no combate radical à mentira como parte do jogo político. Tudo o que PT condenava, agora faz. Isso é um choque para quem acreditou.
|