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29/6/2005 15:40:31
RICARDO GARAY
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| RICARDO GARAY |
O Saia Justa desta semana é com o músico e empresário Ricardo Garay, diretor da Jinga, umas das mais premiadas produtora de áudio do Sul e uma das mais brilhantes do país. Ricardo é bom no gatilho, atirou legal e saiu-se muito bem de nossas perguntas à queima-roupa. Também, depois de ter produzido mais de 12 mil jingles e spots, o cara tinha que estar afiado mesmo. Confira!
ADONLINE: Para começar rachando, porque anda tão baixa a qualidade criativa da produção de jingles e spots no Brasil? É culpa das agências que não dão briefings criativos, dos anunciantes que não querem arriscar ou das produtoras que ficam só no "feijão com arroz"? RICARDO GARAY: É pegadinha, né? Cadê a câmera escondida? Não acho que a qualidade da criação e da produção de jingles e spots no Brasil seja diferente da qualidade dos filmes ou dos anúncios ou dos banners para Internet. Pelo que eu consigo perceber, está tudo mais ou menos no mesmo patamar. Mesmo. O que aconteceu - e não foi só no Brasil - é que, assim como em outras áreas da publicidade, o acesso às ferramentas básicas está menos caro, a coisa ficou mais democrática, vamos dizer assim, pra usar uma palavra muito na moda, e isso fez com que houvesse uma espécie de "pulverização": há muito mais agências, muito mais produtoras de imagem e som, mais finalizadoras e, em geral, muito mais gente colocando muito mais coisas no ar. Até porque há mais canais de TV, mais rádios, mais cinemas, tem a Internet, tem os celulares... e, graças a Deus, parece até que há mais anunciantes. O que não está acompanhando esse crescimento de quantidades é a quantidade de dinheiro - o PIB do país cresce muito mais devagar do que deveria - ou poderia, sei lá. Quanto a culpa pela qualidade, se é pra escolher culpados, acho que cada uma das partes envolvidas tem a sua parcela, pra o bem e para o mal. Quer dizer, o culpado é o mordomo.
ADONLINE: Ainda impera aquela história de a produção de áudio ser o patinho feio da propaganda, ou seja, gasta-se quase toda a verba de produção com o filme e o que sobra gasta-se com o jingle? RICARDO GARAY: A Jinga tem a sorte (mesmo) de ter clientes que sabem a importância que boa música pode ter na publicidade deles. São esses anunciantes e agências que nos mantém funcionando e fazendo o que a gente mais gosta de fazer, taco a taco com sexo. Quem quiser saber quem eles são, a gente dá o nome aos bois em nosso site, é o www.jinga.com.br Mas - é verdade - uma quantidade ainda grande de agências e anunciantes não está realmente preocupada em ter música que funcione nos comerciais. Eles podem negar, mas jogam pra cumprir tabela, e fim. O destino desses caras é o esquecimento - deles, dos comerciais deles, das marcas deles, etc. Estou há quase 30 anos no mercado, e já vi o filme. Também tem muita gente que força a barra, que desdenha, que finge que acha que música é tudo a mesma coisa, mas que, na hora H, reconhece que o patinho feio, na verdade, é um cisne maneiro - e paga o preço justo pelas "musiquinhas". Pra terminar, também tem que se encante com o canto da sereia - pra permanecer na mesma área líquido-metafórica do patinho - e acredita que é possível fazer milagres com dinheiro, acredita que alguém consegue multiplicar pães e peixes, acredita que é possível fazer música excelente com fé e uns trocados, etc, esquecendo que, como regra, é de onde menos se espera que não sai nada. E, à propósito, viva o Barão de Itararé.
ADONLINE: Ainda existe muita agência pedindo um "por fora" além dos regimentais 15%? RICARDO GARAY: Elas são poucas, mas ainda existe agência pedindo, sim. E os 15%, esclarecendo provavelmente sem necessidade, quando ainda existem, são pagos pelo anunciante diretamente para a agência.
ADONLINE: E prospects que se adonam de boas idéias e acabam utilizando jingles sem pagar, tem muito? RICARDO GARAY: Isso acontece mas, aqui com a Jinga, que a gente saiba, não aconteceu. O que tem acontecido muito é copiarem jingles de nosso site na Internet. A Jinga é uma das poucas produtoras que dá a cara pra bater expondo centenas de trabalhos na Internet. Isso é duplamente perigoso: primeiro, porque expondo muita coisa, e não apenas os cinco ou seis trabalhos mais premiados, a produtora passa uma idéia do que seria a sua "qualidade média", e não do que seriam os seus "picos de excelência". A gente acha que é mais perigoso mas mais honesto expor mais coisas - assim o cliente tem como avaliar melhor o que a gente faz, ele sabe o que esperar da gente e não se frustra. O segundo perigo é justamente o de alguém copiar os jingles. E isso tem acontecido mais do que a gente esperava que acontecesse. Pra cuidar desse problema da maneira mais correta, estamos com ações na Justiça rolando em várias cidades, algumas com indenizações de valor muito, muito significativo - e estamos pedindo a detenção dos caras que nos copiaram, pelo crime, como é previsto na Lei. A gente sabe que vai demorar - dizem que a Justiça é cega, e vem se batendo em tudo pelo caminho - mas nós não temos pressa.
ADONLINE: Qual o percentual de jingles em relação a spots? Um spot bem produzido não é melhor do que muito jingle porcaria que anda por ai, que se limita a "cantar o briefing"? RICARDO GARAY: A Jinga, até porque eu e meus sócios somos compositores, sempre teve foco em criação e produção de música. Então, pra cada 20 jingles, a gente grava 1 spot. Nas minhas contas, dá 95% de jingles, pra 5% de spots, não é isso? Aqui tem um problema básico pra ser comentado: muitas rádios dão, de graça, free, sem custo, na faixa, por zero reais, os spots para as campanhas dos clientes - e esse recurso pra lá de questionável é aceito até por algumas agências, que topam mandar os textos pras rádios, direto. É um esquema "esperto" onde, lá no fim, todo mundo perde - inclusive a rádio, porque o ouvinte muda de estação na hora dos comerciais - mas, enfim, isso existe. É um péssimo negócio, mas existe. Voltando, o esquema dos "spots de brinde" fez - e não é de hoje - com que a qualidade média dos spots caísse, por razões óbvias. Daí, muito anunciante tem medo de fazer spots, ele mistura, acha que se é spot é ruim, e quer pular direto pros jingles, mesmo quando ele não tem o dinheiro necessário pra contratar bons profissionais e fazer um jingle bacana. Essa coisa de queimar etapas termina é queimando a marca, claro. Porque, lógico, é muito melhor um spot bom que um jingle ruim. Teve uma época em que a gente gravava uns spots engraçados para a Gang e para a 30 Graus Sul aqui na Jinga. Eram bem produzidos, os roteiros eram ótimos e tal. Um dia, a gente viu uma pesquisa dessas de comerciais mais vistos em TV e os spots da Gang estavam lá, pontuando! Não eram os mais vistos, mas apareciam razoavelmente bem na lista, que era quente. Detalhe: a Gang, naquela época, não fazia absolutamente nenhuma TV. Se algum de nós ainda tinha alguma dúvida quanto ao poder real de um bom spot de rádio, naquela hora, sumiu pra sempre. Enfim, eu acho que um bom spot pode não ser apenas melhor que um jingle ruim (ou mais ou menos) - um bom spot pode inclusive ser melhor que um comercial de Tv ruim (ou mais ou menos).
ADONLINE: Qual é o pior tipo de cliente, o que acha que sabe tudo, ou que tem certeza? RICARDO GARAY: O pior tipo de cliente é o que não paga. O resto, a gente dá um jeito.
ADONLINE: Qual o pior jingle que você já ouviu? E o melhor? RICARDO GARAY: O pior dos últimos tempos, e não estou brincando, nem escondendo o jogo, nem fazendo gênero, eu esqueci qual era. Mas me lembro exatamente do sentimento e de pensar, na hora, "puta que o pariu, nunca ouvi nada tão ruim". Acho que é tipo uma defesa do cérebro, uma defesa contra dor, coisa assim - esqueci totalmente de quem era o jingle. Anestesiou. Zerou. Apagou o HD. Agora, o melhor jingle dos últimos tempos, aquele que só tem o defeito de não ter sido a gente quem fez, com certeza, é o da Honda, esse do filme "Grrr", que acaba de ganhar o Grand Prix em Cannes. A primeira vez que eu ouvi, isso faz meses mas eu lembro muito bem, a sensação foi maravilhosa, boa mesmo. Isso que eu nem gosto daquele estilo de música, a minha praia é outra. Muita gente notou a semelhança dos assobios do "Grrr" da Honda com os assobios que usamos em nosso jingle "Educar é", para a RBS. Pois é, tem a ver mesmo.
ADONLINE: Para terminar de forma mais amena, quantos jingles/spots você já produziu na vida? RICARDO GARAY: Não tem como saber ao certo mas, sem medo de exagerar, mais de 11, não, mais de 12 mil. A gente fez a conta ainda um dia desses. O problema dessa conta é que boa parte são projetos que, mesmo produzidos, nunca foram ao ar. Então, se contar só o que foi efetivamente veiculado, a conta baixa pra algo como 8 mil peças. É uma quantidade enorme de trabalho, olhando do lado de cá.
ADONLINE: Qual deles receberia o Oscar e qual receberia o troféu Abacaxi? RICARDO GARAY: Por vários motivos - acho que seria um Oscar daqueles de "Pelo conjunto da obra" - o Oscar iria para "Vida", que é a música de fim de ano da RBS, e que eu e o Calique fizemos em 1986. Esse jingle tem um enorme significado pra mim. Já, nesse momento, acho que eu dou sem pestanejar o Oscar "Abacaxi" para o jingle "Vem pra Frente", que nós criamos e que ajudou a eleger Tarso Genro, do PT, para a Prefeitura de Porto Alegre. Eu não tinha como imaginar o "Abacaxi" que a gente estava, sem saber, ajudando a criar.
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