“Preciso trocar esse teclado”. Se você não disse isso alguma vez, conhece alguém que já comentou. Normalmente é um frase de quem passou dos 40 anos e dificilmente usa o verbo digitar. “Hoje, digitei um texto maravilhoso”. Não. Usa a expressão “bater à máquina”. É o que os jornalistas das velhas gerações faziam. Nem dactilografavam, o verbo das máquinas de escrever. Se você não sabe o que é isso, máquina de escrever é uma precursora do computador, a impressão do documento era concomitante à redação. Sensacional.
Bem, no século 20, meu filho, quem utilizasse os 10 dedos para teclar (mínimo da mão esquerda digitava o a, o z e o q, polegares acionavam a barra de espaço), era um profissional valorizadíssimo e conseguia emprego fácil em escritórios, consultórios e repartições públicas. Tinha até curso de dactilografia (com este c entre o a e o t, caiu mais tarde).
Mas nem tudo era simples. Nem sempre as máquinas de escrever eram dóceis. As redações (as salas das empresas jornalísticas onde se redigem os textos de jornais, rádios e tevês) nunca tinham tinham máquinas suficientes para o número de jornalistas. Assim, ninguém tinha a “sua máquina”, mas usava a que estava vaga. Mais uma coisa: até os anos 1970, elas eram de ferro.
Não terminei. Sempre, e continua assim até hoje, o jornalista está atrasado. Ele precisa do dobro do tempo que lhe dão para escrever um texto. O que significa “escreva logo”. E nem todos os redatores eram dactilógrafos. Aliás, a maioria não era. Utilizavam um dedo de cada mão no teclado. Eram os dedógrafos. Em compensação, alguns tinham uma competência invejável. Muitos grandes textos do nosso jornalismo foram escritos por dedógrafos.
Máquinas de ferro, com vários usuários, pouca manutenção e velhas, (porque eram caras e a renovação era rara) logo se tornavam duras. Tinha que ter força nos dedos, e braços, para fazer a tecla acionar a alavanca da letrinha que imprimia o texto. A gente usava tanta força que não tinha LER ou qualquer lesão desse tipo.Erro de digitação, digo, de dactilografia, significava retroceder, preencher de X para anular o erro e seguir em frente. Tudo isso era feito com pressa, com força. Por isso, a gente “batia à máquina” nossas reportagens.
E com essa expertise chegamos na informática. Minha estreia foi desastrosa porque todas as letras saim dduupplliiccaaddaass nas minhas primeiras digitações. Dominei isso. Mas ainda não apreendemos a delicadeza do teclado.
Quando comentei isso com o Julio Ribeiro, ele riu e me perguntou: “Então, quer dizer que tu ainda bate uma?”. Engraçadinho ele.
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